Concurso Público Nacional Universidade Federal do ABC

São Paulo, SP, 2005, Institucionais

Este não pode ser um edifício qualquer, pois abrigará a primeira universidade federal da região metropolitana mais importante do país, daí a necessidade de ser um edifício com forte vocação simbólica, portanto, nossa preocupação inicial foi com o estudo do terreno, muito generoso, porém com conturbadas relações com o entorno, para a minimização dos impactos de uma estrutura que, será de fato o projeto motor para a renovação de toda a região, é fundamental a reestruturação do sistema viário, com a construção de uma nova alça de acesso para quem vem de São Paulo; a criação de uma rua paralela à Avenida dos Estados que segue paralela à rua Santa Adélia; o alargamento da rua da Abolição e a construção uma rua de acesso exclusivo à moradia estudantil, que por sua vez, está ligada a uma passarela de pedestres e ciclistas conectando os estudantes aos centros de ensino, ao sistema modal de transportes e ao centro comercial do outro lado do Rio.

O nosso projeto procurou assegurar a permeabilidade do tecido urbano, conferindo flexibilidade no uso dos espaços públicos e privados, criando grandes esplanadas de contemplação e acomodação dos fluxos do entorno, acentuando e valorizando as visuais da cidade e fundindo um local de produção de conhecimento com o tecido da cidade, de forma progressiva e sistêmica, permitindo, inclusive, a participação da comunidade no conjunto.

A concepção de um centro universitário abrigado em um único edifício de aporte metropolitano, implantado no norte do terreno e na cota mais alta, onde sua volumetria sóbria somente é rompida por um único volume, ocupado pelo teatro do centro cultural e a criação de um bosque com um lago-reservatório, entre a Avenida dos Estados e o edifício, são elementos que, integrados, acabam conferindo um caráter monumental ao conjunto.

O edifício principal é composto por quatro grandes blocos modulares que podem funcionar de maneira autônoma, pois são auto-suficientes com relação às necessidades programáticas, possuem torres de circulação, laboratórios, anfiteatros, lojas, espaços para professores, núcleos de pesquisas e um vazio central muito iluminado, onde estão voltadas as principais atividades da universidade. Os blocos podem ser construídos individualmente e por etapas, quando repetidos configuram um conjunto único, com grandes átrios e praças cobertas, marcados pelas “colunas da sabedoria” que, determinam fortemente o ritmo interno da composição, reforçando seu caráter solene.

O acesso principal é feito pela rua da Abolição, onde temos a grande esplanada de acesso por sobre o edifício-garagem, e chegamos em uma praça coberta que acolhe quem da rua vem, funciona como um distribuidor de fluxos, onde o usuário percorre todo o conjunto por meio de rampas, escadas, elevadores, atingindo todos seus planos em níveis e desníveis, alternando espaços abertos e fechados. A circulação interna é perimetral, se beneficiando das visuais da cidade, do terreno e do entorno imediato, alcançadas graças à implantação privilegiada, no ponto mais alto do terreno e, pela utilização dos planos em desníveis. Nos dois extremos do conjunto encontramos a unidade poli-esportiva, com piscina e quadra, e, o centro cultural, estes dois módulos podem ser construídos em uma última etapa.

 No pavimento junto ao bosque encontramos a biblioteca, os anfiteatros, o refeitório e o centro cultural com os cinemas e o teatro - um volume que parece não tocar o solo e, por sua localização, pode funcionar de forma independente, possuindo acesso direto, não interferindo no funcionamento da universidade. Neste mesmo nível encontramos o primeiro andar de estacionamento e uma rua coberta de serviços, com capacidade de receber veículos de médio porte, inclusive ônibus, fazendo todo o abastecimento do complexo.

Na cobertura do edifício encontramos a área de lazer, representada pela piscina de uso comum, uma lanchonete e bar, as salas para os futuros diretórios acadêmicos, e um grande salão de uso múltiplo, neste pavimento podemos implementar um sistema de painéis fotovoltaicos para a captação de energia solar, já que temos orientação favorável no sentido norte, com incidência de sol durante todo o ano.

A moradia dos estudantes, o único conjunto desvinculado do edifício principal, foi pensada de maneira a ser construída também em etapas, graças ao seu sistema modular, com quatro pavimentos e sobre pilotis, cada unidade abriga até quatro estudantes, pode ser acessada pelo edifício principal, pelo bosque e pela rua da Abolição por meio de uma passarela, muito grande, porém necessária, para pedestres e ciclistas que faz toda a ligação em nível, com a universidade, o sistema de trens, ônibus e ao centro comercial do outro lado da Avenida dos Estados.

O grande edifício com seus espaços públicos e semi-públicos, aproxima seus usuários, alunos, professores e funcionários, são espaços democráticos capazes de fazer frente às atuais demandas culturais tão diversas e próprias de nosso povo,   enfim, um lugar que permite a vivência, a troca, o encontro. Atende ainda as demandas urbanas, com seu caráter unificador, funciona como uma espécie de relé, controlando e distribuindo as energias vitais da cidade, o grande laboratório das experiências humanas, marcado pela criatividade e intencionalidade: “a mais alta responsabilidade da universidade consiste no exercício das funções de órgão de criatividade cultural e científica, e de conscientização e crítica da sociedade. Satisfazer aos requisitos indispensáveis ao bom desempenho destas funções é tarefa muito difícil para qualquer universidade, particularmente as universidades das nações subdesenvolvidas, onde isto é mais necessário” (Ribeiro, 1975).

Ficha Técnica

Projeto

Concurso Público Nacional Universidade Federal do ABC

Local

São Paulo, SP

Data

2005

ArquiteturaChristiane Costa Ferreira, Edgar Gonçalves Dente e José Maria de Macedo Filho

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